quinta-feira, 29 de março de 2012

Histórias verdadeiras vividas por um comando

A estorieta abaixo escrita, foi extraída do livro “a flor do capim”. O autor , josé correia lino antigo comando da 43ª, tem todo o gosto em disponibilizar extractos da referida obra para o blog da 33ª Cª de Comandos embora com naturais arranjos de forma a fazer sentido para quem ler os excertos fora do contexto do livro.
Tudo o que irão ler passou-se na realidade no seio da antiga 43ª Companhia de Comandos.
AS NOIVAS
O título diz noivas, porque naquele tempo era mesmo assim, também podia dizer namorada, que ia ter o mesmo sentido de responsabilidade que o nome de noiva encerrava. Hoje, embora a terminologia seja a mesma, já o grau de seriedade varia. Modernamente noiva é uma coisa, namorada é outra, por isso o título de noiva, a coisa era séria e para exemplo escutem esta:
Depois de dez dias de instrução no mato os “bandidos”(1) raparam-nos o coco, levaram-nos a um riacho, autorizando-nos a lavarmo-nos. Quando descalcei uma das botas, tirei a meia em pedaços, a merda por baixo era tanta que parecia uma segunda peúga mas cheia de bicheza. Depois de lavados e ainda todos nus mandaram-nos vestir as cuecas e tirar uma fotografia. O Lagoa descuidou-se, não puxou bem o tapa cus para cima e pós revelação na foto viam-se alguns pentelhos. Olhem meninos, caiu o Carmo e a Trindade com os noivos e casados a quererem malhar no desgraçado do Lagoa, Como é que podiam enviar aquilo para as suas meninas com os pentelhos do Lagoa a espreitarem à janela? Um dos “especiais”(2), até lhe deixou de falar por não lhe conseguir bater, os desalinhados choraram de tanto rir. Para desespero dos “especiais” e companhia, sempre que se tirava uma foto gritávamos logo:
—Oh Lagoa esconde os pentelhos...
Foi por causa deste tema que concluí que a “Sacanagem” da 43ª eram os maiores cretinos e mentirosos do mundo, ao ponto dos “desalinhados” (3) como eu, se sentirem ofendidos com tanto fingimento e tanta traição, vamos aos factos:
Quando havia correio caíam piadinhas de uns para os outros por causa das hipotéticas mensagens das meninas ou senhoras. Os noivos especiais não admitiam essas piadas e os malandros dos desalinhados não se podiam meter no jogo, às vezes para pelo menos poder cumprimentar uma delas eu dizia que também namorava, mas rapidamente fui descoberto, pois o meu correio andava por todo lado e facilmente concluíram que eu só recebia cartas da família, a partir do dia que souberam que andava a fazer batota fui logo proibido de perguntar a qualquer um deles como andava a “boazona” ou com quem ela teria saído naquele fim-de-semana. Essas piadinhas estavam reservadas para o círculo deles, ai daquele que se descuidasse largando em local que se visse uma carta já aberta, era logo lida pelo que primeiro que a descobrisse.
Haviam dois “noivos especiais” que muito naturalmente se achavam mais puros que os Camaradas de estado civil e que os casados que ao fim de semana necessitavam de dar uma voltinha de “bicicleta”(4), chamavam-lhes de sem vergonha e que as noivas ou esposas lá em Portugal deveriam ter idêntica atitude. Coitados, ninguém lhes ligava, era pregar aos peixes.
Logo no início quando fomos para Moçambique os “dois especiais” que disseram ter jurado voto de castidade às noivas, motivando a risota geral dos já alinhados (noivos e casados), enquanto os desalinhados acharam a afirmação tão “pacaçona” que nem vontade de rir tiveram pelo ridículo do que estavam a ouvir. Coitados dos rapazes, realmente não sei como conseguiram aguentar para aí uns cinco meses sem “fazer máquina”(5).
Ficamos espantados quando logo após a primeira intervenção os “castos” foram morar com outros de companhias diferentes e soubemos por eles próprios que já sabiam fazer “máquina” ou andar de “bicicleta”.
Por causa do “fazer máquina”, de noivas, casamentos ou outras coisas tão sérias como essas, concluí quase sem querer, que só dois ou três contando comigo eram os únicos honestos dentro daquela “Sacanaige” toda, não enganávamos ninguém.
Todos os comprometidos à excepção dos tais “dois”, falavam das namoradas (noivas) com uma certa saudade, o que motivava logo um esfregar de mãos de outros que também as tinham e que podiam entrar na brincadeira. Vejam bem os piratas que eles eram, enganavam-nas e ainda por cima permitiam “bocas” acerca delas.
Mas o que mais me admirava eram os gajos irem para um canto ler as “cartinhas” das meninas e regressarem do isolamento com os olhos vermelhos, ou até quando lhes estavam a escrever uma ou outra lágrima rolava-lhes pela face que eu bem via. Que hipócritas... Passado meia hora, nem tanto, já andavam a “pedalar” com a “marrussa” que estivesse mais à mão.

Esclarecimento —O texto das noivas, como todos os outros sem excepção, foram escritos como os vi e senti na altura. Hoje, não sendo tão cruel e de tão maus pensamentos ( julgo eu), tendo um lar e uma família a sério, já consigo imaginar um pouquinho do diabólico sofrimento dos acima citados, as saudades de quem amava a sério, ou pensava que era amado...


(1) “bandidos”. O autor chamava este nome e outros bem piores aos instrutores dos comandos.
(2) “especiais” eram aqueles noivos que se julgavam quase casados.
(3) “desalinhados” aqueles que não tinham assumido qualquer compromisso em relação a namoros.
(4) “andar de bicicleta” desenferrujar o bico ao prego ou sexar.
(5) “fazer maquina” sexar em moçambicano

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