sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

" Rastos "


Rastos

Tinha pouco mais de vinte anos. A idade em que tudo parece estar ao nosso alcance, em que os projectos e os sonhos deslizam no pensamento à velocidade da luz, sem aparente resistência. Quando o conheci, percebi que não era mais um, entre os milhares que vestiam a mesma farda. A sua argúcia e inteligência, conferiam-lhe um estatuto diferente entre os seus pares. A sua personalidade, sempre bem vincada nas sugestões que me dava e a habilidade especial que demonstrava na manipulação de armas e engenhos bélicos, davam-me a segurança necessária para nunca abdicar da sua presença, bem próxima, em qualquer missão que realizássemos.
Tinha o vício da fotografia e uma relação fácil com as câmaras fotográficas. Eu explorava, ainda, a robusta e simpática Minolta, adquirida em segunda mão, com a qual me propunha documentar a “minha involuntária guerra”, como se fosse uma criança a manipular um novo brinquedo. Desesperado, acabava sempre por cair na tentação do “automático”. Ele ria-se e dizia-me que uma máquina tão boa, a ser tão maltratada, era um crime que não tolerava a ninguém, muito menos a um alferes. E ensinou-me os processos básicos de manuseamento. Resultado: meteu-me também o vício no corpo. E, nas “pausas da guerra”, ambos nos entretínhamos a ensaiar registos de luxuriantes florestas, de paisagens alucinantes, de poses e outras infantilidades de jovens militares em campanha. Centenas de fotografias foram-se acumulando, entretanto, no meu portfólio de guerra, fazendo jus à minha nova faceta de fotógrafo amador.
… Os dias iam decorrendo, ora plácidos e monótonos, nas paredes brancas do quartel, ora atrevidamente perigosos, nas entranhas perversas da floresta, até que o momento fatídico chegou…! Sem aviso prévio, sem compaixão nem hipóteses de apelo, reclamou as mãos e os olhos do “mestre”. Um engenho explosivo roubou-lhe parte do corpo. Não lhe roubou a dignidade e a alma. Essas, ficaram eternamente presas nas parte restantes do seu corpo, nas fotos que ambos tirámos.
Chama-se António Neves. Penso que este nome dispensa mais encómios. Quem não o conhece? A meu convite, visitou o Colégio Campo de Flores, em Almada, no dia 15 de Outubro de 2010, Dia da Bengala Branca, para uma palestra, inesquecível, com os alunos do oitavo ano, que, entretanto, tinham desenvolvido já diversas acções de sensibilização à realidade da deficiência visual.
Nota: O nosso camarada não usa bengala branca. As suas próteses não conseguiriam segura-la…! Para ele, e para tantos outros camaradas, “sacrificados” nessa longa e dolorosa guerra, deixo aqui este poema, já editado no meu livro “A Arma”.

Dei-te tudo, tudo, tudo,
Corpo, alma, o meu saber e a minha força bruta.
Esgotei-me no tempo para morrer e alimentar a tua luta.
Dei-me aos bocados, como quem se rasga
E oferece a própria vida.
Sangue brotado, corpos trocados, em causa perdida!

(texto adaptado de um artigo publicado no Boletim da Delegação de Comandos de Almada)
Alexandre Pinheiro

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